| O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO IV - O INFERNO | 1315 |
vossa infelicidade? Que fostes na Terra? Eu fui, lhe respondeu essa sombra, Nabofarzan, rei da soberba Babilônia; todos os povos do Oriente tremiam ao simples sussurro de meu nome; eu me fazia adorar pelos babilônios em um templo de mármore,
onde estava representado por uma estátua de ouro diante da qual se queimavam, dia e noite, os preciosos perfumes da Etiópia; jamais alguém ousou me contradizer sem ser logo punido; inventava, cada dia, novos prazeres para me tornar a vida mais deliciosa. Era ainda jovem e robusto; ai de mim! Quanta prosperidade me restava, ainda, para gozar no trono! Mas uma mulher que amei, e que não me amou, fez-me sentir que não era deus: ela me envenenou; e não sou mais nada. Colocaram ontem, com pompas, as minhas cinzas numa urna de ouro; choraram, se arrancaram os cabelos; fizeram parecer quererem atirar-se às chamas da minha fogueira para morrerem comigo; vão, ainda, gemer ao pé do soberbo túmulo onde estão as minhas cinzas, mas ninguém me lamenta; minha memória é horrorosa mesmo na minha família, e aqui embaixo já sofro horríveis tratamentos.
"Telêmaco, tocado com esse espetáculo, lhe diz: Éreis verdadeiramente feliz durante o vosso reinado? Sentíeis essa doce paz sem a qual o coração permanece sempre oprimido e murcho no meio das delícias? Não, respondeu o babilônio; não sei mesmo o que quereis dizer. Os sábios gabam essa paz como o único bem: para mim jamais a senti; meu coração estava, sem cessar, agitado por desejos novos, por medo e por esperança. Tratei de atordoar-me, a mim mesmo, pela excitação de minhas paixões; tinha necessidade de manter essa embriaguez para torná-la contínua: o menor intervalo de razão tranqüila ter-me-ia sido muito amargo. Eis a paz da qual gozei; tudo mais me parecia uma fábula e um sonho; eis os bens que lamento.
"Falando assim, o babilônio chorava como homem frouxo, amolecido pelas prosperidades e que não estava acostumado a suportar, constantemente, uma infelicidade. Tinha perto de si alguns escravos que foram mortos para honrar os seus funerais; Mercúrio entregara-os a Caronte com seu rei, e lhes dera um poder absoluto sobre esse rei que serviram na Terra. Essas sombras de escravos não temiam mais a sombra de Nabofarzan; elas o tinham acorrentado e lhe faziam as mais cruéis indignidades. Uma lhe dizia: não fomos homens tão bem como tu? Como foste bastante insensato