| O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO VI - DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS | 1344 |
nar-se boa; podendo tornar-se boa, pode aspirar à felicidade; Deus seria justo de, para isso, recusar-lhe os meios?
Sendo o bem o objetivo final da criação, a felicidade, que dele é o prêmio, deve ser eterna; o castigo, que é um meio de atingi-lo, deve ser temporário. A mais vulgar noção de justiça, mesmo entre os homens, diz que não se pode castigar perpetuamente aquele que tem o desejo e a vontade de fazer o bem.
17. Um último argumento em favor da eternidade das penas é este:
"O temor de um castigo eterno é um freio; se fosse tirado, o homem, não temendo nada mais, entregar-se-ia a todos os desregramentos."
Refutação Esse raciocínio seria justo se a não eternidade das penas ocasionasse a supressão de toda sanção penal. O estado feliz ou infeliz, na vida futura, é uma conseqüência rigorosa da justiça de Deus, porque uma identidade de situação, entre o homem bom e o homem perverso, seria a negação dessa justiça. Mas, por não ser eterno, o castigo não é menos penoso; se o teme tanto mais quanto nele se crê, e nele se crê quanto mais seja racional. Uma penalidade na qual não se crê não é mais um freio, e a eternidade das penas está entre este número.
A crença nas penas eternas, como dissemos, teve a sua utilidade e a sua razão de ser em uma certa época; hoje, não somente ela não toca mais, mas faz incrédulos. Antes de colocá-la como uma necessidade, seria preciso demonstrar-lhe a realidade. Seria preciso, sobretudo, que se visse a sua eficácia sobre aqueles que a preconizam e se esforçam em demonstrá-la. Infelizmente, entre estes, muitos provam, por seus atos, que não estão nada amedrontados com elas. Se é ineficaz para reprimir o mal entre aqueles que dizem nela crer, que império pode ter sobre aqueles que não crêem?
IMPOSSIBILIDADE MATERIAL DAS PENAS ETERNAS.
18. Até aqui, o dogma da eternidade das penas não foi combatido senão pelo raciocínio; vamos mostrá-lo em contradição com os fatos positivos que temos sob os olhos, e provar-lhe a impossibilidade.
Segundo esse dogma, a sorte da alma está irrevo-