| O CÉU E O INFERNO - PRIMEIRA PARTE - DOUTRINA - CAPÍTULO VI - DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS | 1347 |
A DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS FEZ SUA ÉPOCA
22. A crença na eternidade das penas materiais, permaneceu como temor salutar até que os homens estivessem no estado de compreenderem a força moral. Tal como as crianças, se contêm, durante um tempo, pela ameaça de certos seres quiméricos, com a ajuda dos quais se as assusta; mas chega um momento, quando a razão da criança, por si mesma, faz justiça aos contos com os quais foi embalada, e no qual seria absurdo pretender ver pelos mesmos meios. Se aqueles que a dirigem persistirem em afirmar-lhe que essas fábulas são verdades que deve tomar ao pé da letra, perderão a sua confiança.
Assim ocorre hoje com a Humanidade; ela saiu da infância e sacudiu as suas andadeiras. O homem não é mais esse instrumento passivo que se curva sob a força material, nem esse ser crédulo que aceitava tudo, de olhos fechados.
23. A crença é um ato do entendimento, e, por isso, não pode ser imposta. Se, durante um certo período da Humanidade, o dogma da eternidade das penas pôde ser inofensivo, salutar mesmo, chega um momento onde se torna perigoso. Com efeito, desde o instante em que o imponhais como verdade absoluta, quando a razão o repele, disso resulta, necessariamente, de duas coisas uma: ou o homem, que quer crer, se faz uma crença mais racional, e então se separa de vós; ou bem não crê mais em nada. É evidente, para quem estudou a questão a sangue frio, que, em nossos dias, o dogma da eternidade das penas fez mais materialistas e ateus do que todos os filósofos.
As idéias seguem um curso incessantemente progressivo; não se pode governar os homens senão seguindo esse curso; querer detê-lo ou fazê-lo retroceder, ou simplesmente permanecer atrasado, quando ele avança, é perder-se. Seguir, ou não seguir, esse movimento é uma questão de vida ou de morte, para as religiões assim como para os governantes. É um bem? É um mal? Seguramente, é um mal aos olhos daqueles, que, vivendo no passado, vêem esse passado lhes escapar, para aqueles que vêem o futuro, é a lei do progresso que é uma lei de Deus, e, contra as leis de Deus, toda resistência é inútil; lutar contra a sua vontade é querer se destruir.