O CÉU E O INFERNO - SEGUNDA PARTE - EXEMPLOS - CAPÍTULO II 1457

de amadora; mas, mais tarde, quando vieram os maus dias, soube dele fazer um precioso recurso. O que, sobretudo, a fazia amar e estimar, o que torna a sua memória cara a todos aqueles que a conheceram, é a amenidade do seu caráter; são suas qualidades particulares, das quais só aqueles que conhecem a sua vida íntima podem apreciar toda a extensão; porque, como todos aqueles nos quais o sentimento do bem é inato, não fazia ostentação dele, e dele nem mesmo desconfiava. Se há alguém sobre quem o egoísmo não tinha nenhuma presa, era ela, sem dúvida; talvez jamais o sentimento de abnegação pessoal foi levado mais longe; sempre pronta a sacrificar o seu repouso, a sua saúde, os seus interesses para aqueles a quem podia ser útil, sua vida não foi senão uma seqüência de devotamentos, como não foi ela, desde a sua juventude, senão uma longa seqüência de rudes e cruéis provas diante das quais a sua coragem, a sua resignação e a sua perseverança jamais faltaram. Mas, ai! sua visão, fatigada por um trabalho minucioso, se extinguia dia a dia; ainda algum tempo, e a cegueira , já muito avançada, seria completa.

Quando a senhora Foulon teve conhecimento da Doutrina Espírita, isso foi para ela como um raio de luz; pareceu-lhe que um véu se levantou sobre alguma coisa que não lhe era desconhecida, mas da qual não tinha senão uma vaga intuição; também o estudava com ardor, mas, ao mesmo tempo, com essa lucidez de espírito, essa justeza de apreciação que era própria de sua alta inteligência. É necessário conhecer todas as perplexidades de sua vida, perplexidades que tinham sempre por móvel, não ela mesma, mas os seres que lhe eram caros, para compreender todas as consolações que ela hauriu nesta sublime revelação, que lhe dava uma fé inquebrantável no futuro, e lhe mostrava o nada das coisas terrestres.

Sua morte foi digna de sua vida. Viu-lhe as aproximações sem nenhuma apreensão penosa: era para ela a libertação dos laços terrestres, que deveria abrir-lhe essa vida espiritual benfazeja, com a qual estava identificada pelo estudo do Espiritismo. Ela morreu com calma, porque tinha a consciência de ter cumprido a missão que aceitara vindo para a Terra, de ter escrupulosamente cumprido os seus deveres de esposa e de mãe de família, porque também havia, durante a sua vida, abjurado todo ressentimento contra aqueles dos