| O LIVRO DOS ESPÍRITOS - LIVRO II - CAP. VII - RETORNO À VIDA CORPORAL | 207 |
meios de que dispõe para se comunicar, do mesmo modo que o mudo sofre a de não poder falar.
372 Qual o objetivo da Providência criando seres infelizes como os cretinos e os idiotas?
São os Espíritos em punição, habitando corpos de idiotas. Esses Espíritos sofrem pelo constrangimento que experimentam e pela impossibilidade em que se encontram de se manifestarem por meio de órgãos não desenvolvidos ou desarranjados.
Não é exato, então, dizer que os órgãos não têm influência sobre as faculdades?
Jamais dissemos que os órgãos não tivessem influência. Eles têm uma influência muito grande sobre a manifestação das faculdades, porém não dão as faculdades, e aí está a diferença. Um bom músico com um mau instrumento não fará boa música, e isso não o impedirá que seja um bom músico.
É necessário distinguir o estado normal do estado patológico. No estado normal, o moral suplanta o obstáculo que lhe opõe a matéria; mas existem casos em que a matéria oferece uma resistência tal que as manifestações são obstadas ou desnaturadas, como na idiotia e na loucura. São casos patológicos e, nesse estado, a alma não gozando de toda a sua liberdade, a própria lei humana a isenta da responsabilidade dos seus atos.
373 Qual será o mérito da existência para seres, como os idiotas e os cretinos, que não podem fazer nem bem nem mal, não podendo progredir?
É uma expiação imposta ao abuso que fizeram de certas faculdades; é um tempo de prisão.
Um corpo de idiota pode, assim, abrigar um Espírito que animou um homem de gênio na existência precedente?
Sim, o gênio, às vezes, torna-se um flagelo quando dele se abusa.
A superioridade moral não está sempre em razão da superioridade intelectual, e os maiores gênios podem ter muito a expiar; daí resulta, freqüentemente, para eles uma existência inferior a que tiveram e uma causa de sofrimentos. Os entraves que o Espírito experimenta em suas manifestações lhe são como as correntes que comprimem os movimentos de um homem vigoroso. Pode-se dizer que o cretino e o idiota são estropiados pelo cérebro, como o é o coxo pelas pernas, o cego pelos olhos.